Entrevista com Löis Lancaster

Malva e as Xenarmonices de Löis

Pernóstica Zazu entrevista o compositor de ‘Redondanças: Planeta Nada’

 

PZ – Bom aqui então eu sou a Pernóstica Zazu e vou entrevistar Löis Lancaster para saber dele exatamente o quê que ele pensa de seu trabalho e o seu disco ‘Malva Ornitofrênica’ que vai ser lançado aí pelo Sê-lo!. Me recordo que as pessoas ouvem a palavra microtonal e não entendem muito bem do que se trata. Por isso eu quero perguntar diretamente da boca do compositor, o que é que significa essa história de microtonalismo.

 LL – Zazu, você sabe, há algum tempo que eu componho músicas microtonais.  Uma outra maneira de definir seria xenarmônicas, porque algumas escalas que eu uso não têm uma divisão menor do que a de 12 notas por oitava.

 PZ – Elas seriam macrotonais?

 LL – Sim, mas o termo ‘xenarmônico’ cobre tudo. Então nós temos essa… é uma espécie de novo espectro harmônico, na verdade vários novos espectros harmônicos com os quais podemos lidar, espectros que promovem diferentes progressões harmônicas. Na prática uma harmonia que leva a um novo tom levaria a um lugar no campo dos 12 Tons, mas em 19 tons por oitava levaria a outro lugar. Cada escala traz sua própria maneira de perceber os acordes que fazem ambiência, é o ‘fundo’ da música. Você percebe de outra forma, e às vezes a própria estrutura da escala faz com que certos harmônicos da música como um todo sejam fortalecidos ou enfraquecidos.

 PZ – A escala Bola em Pires (sic) por exemplo?

 LL – Você simplesmente arrebentou. A escala Bohlen-Pierce, se você a utiliza, fortalece os harmônicos ímpares das músicas. Toda a parte relativa ao preenchimento encorpado do som, que fica a cargo dos harmônicos pares, não existe na escala Bohlen-Pierce. Você vai ter que completar com o ouvido, não sou eu que não permito que soe bem, isso nem me passaria pela cachola.

 PZ – É porque… bem isso é que curioso, não é? porque, pelo que você disse, todos os sons da natureza que a gente pode a gente pode ouvir com ouvido, digamos assim, eles têm harmônicos pares?

 LL – Sim, isso mesmo. A pura música em Bohlen-Pierce só existe do sintetizador até chegar no amplificador. A partir daí ela entra em contato com o ambiente natural e passa a ressoar harmônicos pares também. Aí acaba que a gente coloca uma sonoplastia, por exemplo, a compensar o fato de não haver harmônicos pares que preencham ostensivamente uma ambiência. Ela então torna-se mais um complemento necessário da música. É uma nova forma de fazer essa relação entre sonoplastia e canção, né?

 PZ – É. E pra tocar ao vivo, com instrumentos, essas escalas, como é que você faz?

 LL – Eu ganhei um concurso de música microtonal em 2015,  com a canção “Sintonia do Ocidente”, em Bohlen-Pierce, cantada por Ana Maura. Foi um concurso internacional promovido pelo site untwelve.org, com um prêmio em dinheiro e um certificado. O prêmio em dinheiro foi usado para fazer braços de um baixo e uma guitarra na Flórida Estados Unidos ambos na escala Bohlen-Pierce pelo luthier Ron Sword. Depois do esforço hercúleo em superar as barreiras alfandegárias e trazer esses dois braços para o Brasil eu pedi ao luthier Cotia para colocar corpos nesses dois braços em Bohlen-Pierce. A guitarra está sob custódia de Alexandre Loureiro, o guitarrista que valentemente vai fazendo a tablatura desse trabalho. O baixo está comigo, já estou treinando as composições, tá o bicho.

 PZ – Löis, você quer você quer um cházinho, te ofereci nada, você deve estar aí com sede. você veio de tão longe com esse sol no Kangoo! Essa entrevista, gente, está sendo gravada no topo de um arranha-céu aqui em Santa Teresa, aí tem uma árvore aqui no terreno do lado que tá quase caindo em cima da gente, é, tá uma ventania!

 LL – Não, Zazu, eu não quero nada. Eu acabei de almoçar ali na Maroca, comi bem, comi muita salada.

 PZ – Bom já que você recusa a minha hospitalidade, vamos então continuar com a entrevista. me diga então sobre esse novo disco que você está lançando, Löis, como diria o Jaguar, bem sucintamente: Qual é?

 LL – Bom, esse álbum é composto de seis músicas, todas com a temática do goticismo do final do século XIX, do synthpop dos anos 80 também, no século XX, juntamente com a vanguarda Paulista dessa época e a ornitologia, referências muito caras para mim. As faixas não tem numeração, mas a numeração já está implícita na própria ordem alfabética do nome dos arquivos. O disco teve a participação de vários nomes ilustres e talentosos, como o vocal de Cláudia O’Connor, Sidney Honigsztejn, Luciana Lazulli, Lucia Santalices e Ana Maura Araujo. Há duas parcerias com Estevão Freixo, uma com Felipe Zenícola e a bateria de Léo Monteiro. Os títulos e suas respectivas letras fazem ainda referência às aves pintadas em trípticos por Francis Bacon, vídeos de carro pegando fogo, idílios em planetas textuais perdidos ao estilo vintage das séries sci-fi americanas, a força do grafismo dos números nos espaços públicos da urbe, et cetera.

 PZ – bom, então, pessoal, essa foi a entrevista com o nosso querido Löis Lancaster. esperamos tudo de bom, eu disse que você já é um sucesso estrondoso, inestimável em qualquer projeção (até a do comprimento das auras deliciando-se com ectoplasma!) e o seu disco assim o será porque eu já te ensino e bate o sino em alto e bom som que eu vaticino.

 LL – Obrigado pelas perguntas e pelo vaticínio. Dê lembranças à Mordoma Gelsa.

 PZ – Certamente!

Nota do editor: o lançamento do disco está previsto para a segunda quinzena de março de 2017, pelo Sê-lo! E a gente não vê a hora de soltar esse material! Avant!

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