Novo Lançamento: ‘Malva’ de Löis Lancaster

O carioca Löis Lancaster é, atualmente, um dos mais proeminentes compositores microtonalistas brasileiros. E não é por menos; é importante ressaltar o reconhecimento internacional obtido no ano passado pela sua “Sinfonia do Ocidente”, premiada com o primeiro lugar de composição xenharmônica (ou microtonal) pelo site UnTwelve.Org. Mas o passado dele não nega, pois sua carreira, desde meados dos 1990, sempre se pautou por um interesse pelas sonoridades mais progressivas aliadas a um humor mordaz e imaginação pop fora das convencionalidades, deliberadamente underground – ou melhor, udigrudi. Não à toa, foi baixista e vocalista de uma das bandas mais singulares e criativas em todo o rock brasileiro: Zumbi do Mato, que combinava uma sonoridade tão rogressiva/experimental ou jazzy, quanto punk ou funk com letras tão hilárias quanto mórbidas, sarcásticas e críticas, ficção-científica e um surrealismo eletrônico-experimental digno de um Residents. E um detalhe: apostando na formação teclados, baixo e bateria. Sem guitarra, senhoras e senhores!
Entretanto, a aventura de Lancaster aqui no Brasil tem um respaldo estético especial pelo fato de podermos perceber uma linha de continuidade natural de linguagem musical progressiva com a canção dodecafônica e a fissura narrativa pelos comic books de Arrigo Barnabé. Se a sua antiga banda já flertava com o pós-tonalismo dodecafônico sem soar demasiado “cerebral”, Lancaster, solo e solto, encontrou um passo adiante no sistema de temperamento Bohlen-Pierce – que não tem oitavas e só utiliza harmônicos ímpares, indo além dos 12 tons do padrão de temperamento igual consagrado pela música ocidental. Mas a estética microtonal de Lancaster só é alienígena para quem não tem ouvidos habituados às sonoridades mais experimentais – ou, simplesmente, ocos e preconceituosos.
Ou melhor, ele procura ressignificar não exatamente essa tão desgastada MPB, mas a própria tradição da canção urbana brasileira dando a ela uma necessária injeção de contemporaneidade e inteligência. Por mais experimental que seja, Lancaster é carioca da gema. E também universal. Afinal, podemos ouvir na música dele a influência de Frank Zappa, King Crimson, krautrock, pós-rock e também de Noel Rosa, Fernando Pellon (o sambista que criou o incrível álbum Cadáver Pega Fogo durante Velório) e Tom Zé (Ops! Um baiano-paulistano tropicalista…?). E extramusicais também: além do cinema e dos quadrinhos, há ecos literários das crônicas de Stanislaw Ponte Preta e dos contos-reportagem marginais de João Antônio. Uma sonoridade que, sobretudo, passa ao largo do bucolismo bossanovista e também da usual estrutura comercial da canção popular.
Por tudo isso, Malva é um trabalho que representa uma culminância de maturidade e sofisticação de seu autor. Isso não significa que a predileção estética pelo terror ou a ficção-científica foi abandonada. Lancaster faz com este
álbum não apenas um tributo contrapontístico tanto à sonoridade gótica e synthpop dos anos 1980, mas também aos trípticos de Francis Bacon e ao filme “Os Pássaros” de Alfred Hitchcock. Como Arrigo Barnabé, Lancaster tem uma
especial predileção pela voz feminina, apesar de ele cantar também, tomando a voz principal na abertura incrível de “Aflição”. A sonoridade deste álbum, tanto vocal quanto instrumental, é predominantemente pianística, eletrônica,
sintetista, mas muito rítmica – é dançar para também pensar. “Ornitofrenia” (que significa “espírito de pássaro”), faixa escolhida como single e uma parceriacom Felipe Zenicola – que manipulou a eletrônica na parte central da estrutura composicional do tríptico instrumental – representa e resume a criativa simbiose de Lancaster ao incorporar métricas irregulares e rebuscamento estrutural a um gosto tímbrico eletrônico nitidamente influenciado pela já referida sonoridade dos anos 1980. Afinal, como o próprio autor nos diz, “Se o álbum falasse, diria que ‘os anos 80 é que são uma prévia dos 10’, e que ‘o gótico está apenas começando’.” Puro futurismo paradoxalmente anacronista. E, em Lancaster, microtonalismo É o futuro em nossa contemporaneidade.

Malva não é um disco simplesmente de puro experimentalismo estético, no entanto. Há surpresas e irreverências tanto narrativas quanto musicais em seu universo que requerem não somente uma única e simples escuta. É um trabalho vibrante, vital e deveras instigante. Talvez, se o som tivesse propriedades gustativas ou olfativas à aventura de escuta que este álbum representa… teria um gosto ou cheiro de malva. E por que não? Transcenda as sensações, abra seus ouvidos e não se arrependerá, caro ouvinte.

George Cristian Vilela Pereira
01.04.2017

 

OUÇA:
https://selonetlabel.bandcamp.com/album/malva

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